Certo dia disseram-me do sonho. Tão real eram os dedos da mão direita e a esquerda, que pude sentir Deus escorrer pelos olhos. Corrente era o reflexo no silêncio da pele que da janela se via, esguia. Estes olhos que tão pouco sabem do sono, ainda que cerrados estejam, vigiam-no chegar com pés descalços à este sonâmbulo corpo no avesso do que abriga. Nada é maior do que o clarão evocado ao peito. Queimam por entre as chamas o chão em letras sem forma. E eis que ferve-se o verbo calado à espreita do dono para derramar-se boca adentro e remeter-se..

"Há quem diga que todas as noites são de sonhos.
Mas há também quem garanta que nem todas,
só as de verão.
No fundo, isto não tem muita importância.
O que interessa mesmo não é a noite em si, são os sonhos.
Sonhos que o homem sonha sempre, em todos os lugares,
em todas as épocas do ano, dormindo ou acordado."
[William Shakespeare]